Vamos precisar de um mago
“Uma explosão é começo e fim ao mesmo tempo”
— Nitch, o Dragão Louco
Capítulo 1
Vamos precisar de um mago
“Uma explosão é começo e fim ao mesmo tempo”
— Nitch, o Dragão Louco
A fronteira entre as duas regiões era gélida. A Hébria sempre sofreu com o frio, provavelmente devido à sua altitude elevada. A Lamúria, mesmo mais baixa e plana, apresentava temperaturas semelhantes. Ambas possuíam rios e lagos parcialmente congelados, compondo paisagens tão poéticas quanto implacáveis.
O vento machucava guerreiros com delicadeza — e o assovio marcava até as almas que se julgavam blindadas.
Porém, os ancestrais confirmavam: já fora verde e povoada. Nas cartas ancestrais, Lamour vivia reclamando de insetos e pequenos roedores que se aninhavam entre os vãos de suas garras.
— Quanto menores, mais ardilosos! — dizia.
Dizem que o próprio Dragão congelou tudo. Queria ficar sozinho.
Na Hébria, o frio era um lembrete silencioso de que nem mesmo os Deuses Dragões escapavam da verdade. Sob um manto branco de névoa, três figuras buscavam calor em torno de uma fogueira.
Um brutamonte de musculatura talhada e um feiticeiro esguio, acompanhavam uma criança que mal passava da segunda infância. Nem quinze aniversários devia ter.
O guerreiro e a menina pareciam assustados, e com razão. Poucos sobrevivem a uma explosão mágica daquela magnitude. Mas o gigante… ele parecia mais amedrontado do que preocupado. O contraste entre sua força física e sua falta de confiança era evidente — principalmente para ele mesmo.
Tentava disfarçar, mas até suas perguntas exalavam inquietação.
— Você conseguiu conversar com ele? — perguntou Seya.
Seu semblante era apreensivo. Parecia ter colocado medo e curiosidade na balança… e não gostado do resultado.
A pequena garota loira retirou o capuz branco e se sentou perto da fogueira.
— Nós vamos precisar de um mago. — Sua voz era tranquila, mas seus olhos prateados refletiam a luz das luas com uma seriedade incontestável.
— Um mago? Pra quê? — retrucou o guerreiro. — Nós já contratamos o Carlos!
A menina sorriu de canto e explicou:
— Carlos não é um mago, ele é um feiticeiro.
— E existe alguma diferença? — intrigou-se o gigante.
A jovem riu, balançando a cabeça.
— Eita… você não sabe ou esqueceu? — a menina inquiriu.
— Não sei dizer.
— Magos são intelectuais. Fluentes até nas línguas que os dragões esqueceram.
— Mas o Carlos ao menos tentou? — interrompeu Seya, sem cerimônia.
— Sim, mas para ele as instruções nem apareceram. Igual com você.
— Eu o vi brilhar na sua mão — Seya apontou para o embrulho de tecido.
— Sim, ele brilha…, mas eu não consigo ler os escritos. Deve ser draconiano. — Éllie coçou o queixo, segurando o mapa nas mãos. O pergaminho brilhava em um tom verde etéreo.
— Qualquer mago consegue ler isso?
— Sim. A maioria desses pergaminhos estão em Draconiano.
— Eu me assustei quando você me mostrou que ele não pegava fogo… — confessou Seya, demonstrando respeito pelo artefato.
— É. E o estranho é que eu não me lembro como sabia disso.
A pequena virou a escritura em múltiplas direções, tentando decifrá-la.
— E como é que ficam tão inteligentes? — O guerreiro demonstrou curiosidade.
— Não é tão simples, Seya. Eles fazem o Silláureum. — A menina mantinha o sorriso.
— Silláureum?
— Ah, é complicado — a menina encarava a fogueira — eles entram, tipo, num transe de estudo.
A limitação pedagógica se represava em saliva no canto da boca do guerreiro.
— Transe?
— Eles dormem por dez anos, mas sonham que estão estudando. E aprendem.
— Entendi… — Não havia entendido — E quanto aos feiticeiros? — Seya continuou.
— Caóticos — a menina se virou para o guerreiro — Já nascem com toda a mana que podem atingir, então não precisam estudar ou treinar. Pelo menos, é o que eles dizem.
— Entendi — A atenção estava lá, só não era suficiente. — E qual a diferença? — reperguntou.
— Quer dizer que são: apostadores, alcoólatras, arruaceiros, autoritários… — ela contava nos dedos.
— Caralho, virou um acróstico? — murmurou Carlos, semicerrando os olhos com desprezo.
Éllie seguiu com a explicação, agora mais animada com a platéia dobrada:
— Como eu ia dizendo… E os feiticeiros? Ah, bom… olha para o Carlos.
Ela apontou para o feiticeiro hébrio, magro e pálido.
— O que tem eu? — O feiticeiro bocejava.
— Você passaria dez anos estudando alguma coisa? — a menina perguntou.
— Nem fodendo — Respondeu o homem seminu.
Éllie soltou uma gargalhada tão sincera que até Carlos esboçou um sorriso.
O gigante olhou para o lado, onde avistou o feiticeiro Carlos — estendendo as calças úmidas em frente à fogueira.
— Caótico ou não… O homem acorda todo dia mijado. — Seya deu tapas nas costas do colega.
— Pois é… — Complementou a garota, levando a mão à boca para disfarçar os risos.
O homem pálido suplementou:
— Eu ouvi vocês falando sobre magos. Só esqueceram a melhor parte: são um bando de cuzões! — Sua voz estava carregada de ressentimento e um leve tom de embriaguez.
— Fazem qualquer coisa para aperfeiçoar suas magias. Flertam com a mesma culpa que condenam. — Ele se ergueu, cambaleante, e encarou os dois.
— Vai dizer que não concordam? Vocês já ao menos viram um mago?
A pequena não se lembrava de muita coisa, e o pouco que lembrava mal servia de referência.
Estranhamente, uma velha estória lhe veio à cabeça — uma narrativa que ilustraria perfeitamente a diferença entre magos e feiticeiros.
— Você já ouviu falar da fábula de Lazar, o Arquiteto? — perguntou ela, virando-se para o feiticeiro.
Carlos, praticamente pelado em frente à fogueira, realizando seu ritual diário de despertar, ergueu uma sobrancelha.
— Não que eu me lembre.
Ele fez um gesto circular com a mão, pedindo que ela continuasse.
— Pois bem, vou lhe contar.
Havia um castelo antigo, da época dos dragões, herdado pela dinastia Mariana Central.
Certo dia, a Rainha decidiu reformar os aposentos reais e precisava derrubar a parede central. O problema? A parede havia sido erguida com mágica.
O Rei, impaciente, solicitou um feiticeiro na séd, especialista em explosivos. Nenhuma parede, segundo ele, sobreviveria a uma boa explosão. A Rainha, mais sábia, enviou uma carta etérea para a Guilda Cleoziana, solicitando um mago para diagnosticar a situação.
O mago, chegou antes do prazo estipulado e veio sozinho, trajando apenas roupas simples — nada de manto ou cajado. Era um senhor alto e esguio.
Pediu para ver o cômodo e começou a trabalhar. Trancou-se lá por horas e, em determinado momento, até reclamou das frestas da madeira da porta, alegando atrapalharem a escuridão total.
— Ele reclamou para o Rei? — interrompeu o guerreiro, surpreso.
— Não, ele reclamou para a porta. Os magos sempre sabem a quem culpar… mesmo quando estão errados.
Éllie continuou a história:
O mago deixou o cômodo resolvido e declarou que não havia solução para aquele entrave. A reforma não deveria continuar.
O rei preferiu aguardar pelo seu próprio contato.
O feiticeiro chegou. Duas semanas atrasado. Bêbado. Acompanhado de duas namoradas. Instalou-se no palácio por um mês inteiro, um convidado usucapião.
Quando a paciência real superou o prazo da gentileza, o feiticeiro foi cobrado e pediu que esvaziassem o castelo.
Nos bolsos, carregava pólvora escarlate — cem vezes mais potente que a pólvora negra. Espalhou o explosivo em pontos estratégicos da sala e murmurou:
“Vamos ver se o dragão é tudo isso mesmo.”
E assim foi o fim do Castelo Estival da Nihéria.
— Sério? Eu nunca vi um castelo na Nihéria! — indagou o feiticeiro.
— Exatamente. — Concluiu a garota, cruzando os braços.
O guerreiro refletiu por um instante, então riu, balançando a cabeça:
— O velho Rei achou que venceria uma discussão com a esposa? Francamente. Mulheres sempre têm razão… e coitado de quem tentar roubar isso delas. — Foi a conclusão moral do guerreiro.
Carlos abaixou a cabeça e riscou a neve com os dedos fugindo da temática. Èllie percebeu o constrangimento. Não questionou.
— De qualquer maneira, nós vamos precisar de um mago. — retomou Éllie. — Deixei uma carta etérea na taverna relatando a explosão. Apenas magos podem lê-las.
Ela cruzou os braços e suspirou.
— Essas cartas são caras… me custaram duas peças de ouro, então espero que tenha valido a pena.
— Isso é perigoso?
Carlos revirou os olhos.
— Seya…
Apesar da bebedeira, Carlos ainda se mantinha atento. Ele aceitara o contrato e já recebera o adiantamento, mas algo o incomodava. Principalmente a menina. Nem tangenciava o figurino daquela realidade. Destacava-se invisivelmente. De alguma maneira.
Éllie tinha cabelos loiros quase brancos, que, sob a luz gelada, assumiam um tom prateado e verdadeiro, como todas as palavras que partiam de sua boca. Uma ingenuidade paradoxalmente sábia, como se houvesse herdado algo que não merecia.
Não mencionara pais, mestres ou responsáveis. E, diferente do esperado, fora ela quem ajudara o gigante depois da explosão.
Seya era um guerreiro, um provável soldado de elite, forte como poucos, mas, sem memória… perdera identidade e, sem ela, sua confiança.
Essa era a metade mais importante de um lutador.
Ambos os homens, de maneiras distintas, nutriam pela criança um sentimento fraterno, pois, apesar de tudo, era óbvia sua condição de presa fácil.
Estranhava-se a naturalidade catalisada daquele afeto.
Amarrada à sua cinta, Éllie carregava uma pesada bolsa de ouro, que, embora não fosse tão visível, seus passos a denunciavam. A cada movimento, as moedas se agrediam em tilintares metálicos.
Além da bolsa, possuía apenas um mapa em draconiano, que sequer conseguia ler.
No pescoço, usava um colar brega — prateado, com uma pedra verde marcada pela letra L, onde seus dedos desistiam dificilmente de repousar sobre. Um pedaço físico de sua memória, ou, ao menos, um fragmento simbólico.
Não sabia.
Ela esfregava o colar entre os dedos enquanto encarava o horizonte congelado da Hébria.
“Eu perdi a memória ou nunca a possuí?”
Os três estavam na Gleba Fiúza, um conglomerado de vilas rurais na fronteira gelada entre Hébria e Lamúria — duas terras castigadas pelo frio durante o ano inteiro.
A terra de Lamour era quase inabitada. Apenas mercenários e caçadores enfrentavam seus perigos em busca de iguarias.
Ninguém havia a mapeado por completo, além disso, os cartógrafos eram quase mais egoístas do que talentosos.
A Gleba se estendia entre uma planície amigável e as montanhas geladas ao norte.
As cefaleias denunciavam sua condição de forasteiros. Estavam na região mais alta da Hébria e os sintomas da altitude começaram a se apresentar.
— Minha cabeça dói! — murmurou Seya, apertando as têmporas.
— Deve ser a memória tentando voltar! — Éllie sorriu, sempre positiva.
Seya fitou o céu, perdido em pensamentos.
— Eu daria qualquer coisa para acreditar em você, Éllie…
— Chorão! É a altitude. Seu corpo está se acostumando — disse o feiticeiro, enquanto apanhava um punhado de neve para diluir sua bebida. Não usava luvas.
— Eu sabia que você não era um Guilho, Carlos. — Éllie gargalhou.
Carlos refutou o comentário com a expressão de um gato na coleira.
— Se eles cruzassem nosso caminho, você jamais os usaria como piada. São criaturas vis e sem respeito. Selvagens.
O feiticeiro diluía outra dose.
— Os shamãns dizem que, na altitude, o coração sofre pra circular o sangue. — Concluiu.
— E o que isso explica? — Seya não entendeu.
— Significa que aqui ficamos burros. Até os magos sofrem ao convite do pulmão para o ar.
— Eles não são burros, Carlos. Eles nascem nessas condições. — Tenho dó. — A empatia de Éllie aqueceu os homens.
— Tem dó mas usou eles pra me chamar de burro. — Èllie se arrependeu.
— È por causa do ditado… — A menina tentou redenção.
— Qual ditado? — Seya ficou curioso.
— Você é o ditado, Seya. Você é mais burro que um guilho.
Os três gargalharam juntos ao redor da fogueira.
— Além disso, eu me preocupo mais com as bestas brancas. — Carlos engrossou o caldo de medo do guerreiro.
— Yétis são tão valiosos quanto perigosos. — O feiticeiro agarrou um pedaço da vestimenta do guerreiro.
— Você acha que isso é couro de quê? São matéria-prima contra o frio. Até o sangue é inflamável. — Concluiu.
— Por isso estão quase extintos… — Algo morreu na expressão de Èllie.
Seya se aliviou.
A região da Fiúza não era considerada perigosa, e suas tendas foram posicionadas de maneira estratégica, onde a guarita conseguia protegê-los sem querer.
— Obrigado por remontar minha tenda, Seya. Mas, pra mim, ela continuou igual. — Éllie emanava seu sorriso neonato.
— Não precisa agradecer. Ela só me pareceu estranha… e eu nem sei explicar o motivo.
Carlos observava.
Parecia confiar no caráter do gigante.
Seya não percebeu, mas Carlos notou que ele havia posicionado a tenda de Éllie atrás da dele.
Uma medida de segurança.
Talvez houvesse um guerreiro honrado perdido naquela amnésia.
No dia seguinte, o colosso amnésico foi surpreendido por outras habilidades do feiticeiro.
— Que carne deliciosa, Carlos! Como feiticeiro, você é um excelente cozinheiro! — brincou Seya.
— Parece frango, mas tem gosto de porco — acrescentou Éllie.
Carlos deu de ombros.
— Qualquer um churrasqueia um Marú (Sejomarú) decente. O mérito é da carne, não do cozinheiro.
Seya mastigava de boca aberta.
— Não sei dizer…, mas acho que nunca comi uma carne assim.
— Provavelmente não — Carlos sorriu de canto. — O bicho é liso e ardiloso como poucos ladrões. Muito difícil de capturar.
Ele tomou mais um gole da bebida antes de continuar:
— Estes aqui eu comprei com a prata da pequena.
— Bem gastos, eu diria! — Éllie falava de boca cheia, mastigando com deleite a iguaria.
O guerreiro e a menina decidiram dormir, mas Carlos não gostava de esperar pelo sono. Saiu à sua procura.
Seya deitou-se de bruços. Suas costas estavam machucadas. Conseguiu enxergar algumas estrelas pela transparência do pano claro de sua tenda. Poucas brilhavam o suficiente para atravessar a malha do tecido sobre sua cabeça.
Mesmo seguro, Seya só dormia segurando uma faca e sua cama jamais ficava de costas para a entrada. Seu despertar era fácil, o que o fazia ponderar:
“Não é assim que um covarde dorme.”
Éllie, por outro lado, gostava de dormir. Nunca lembrava de seus sonhos, mas sempre despertava sorridente.
Seya não percebeu, mas estava traçando um posicionamento aguçado.
Sabia exatamente onde estava.
O grupo triplo de estrelas alinhadas no Oeste era o Cruzeiro e a estrela que apontava o Norte, Rhaella.
“Por que eu sei isso?”
A pergunta ecoou em sua mente.
Enquanto isso, Carlos caminhava embriagado.
Fumava sua erva-sá há alguns minutos, e já era impossível dizer o que o impactava mais: a droga ou o álcool.
Era um homem alto, de idade indefinida — o vinho e o rum pareciam ter catalisado seu envelhecimento.
Os cabelos eram rentes ao couro cabeludo, aparados para evitar cuidados desnecessários e, junto da barba mal-feita, exibiam congruência com sua personalidade. Mesmo mal-vestido, seus olhos hébrios sugeriam um passado pesado demais para um homem sozinho carregar.
Caminhava de um jeito intrigante não-derivado do efeito da bebida. e mesmo sóbrio, seus passos eram largos e descontraídos, como se ensaiasse uma dança invisível. Era parte inconfundível dele.
Talvez sua cabeça se esforçasse para não se levar a sério, só que era seu caminhar quem respondia desalinhado.
O feiticeiro enganava os julgamentos externos.
Divagava esquivo sobre como aqueles dois haviam sobrevivido. Ele testemunhara a explosão à distância e questionava a sobrevivência de ambos.
“Seya deve ter protegido Éllie de alguma coisa… Apenas suas costas estavam feridas.”
A ideia não o abandonava. Deambulou em círculos até o cansaço vencê-lo, mas não a vontade de dormir.
Na manhã seguinte, Éllie despertou com uma notícia interessante vinda de Seya:
Um barco de velas vermelhas havia encostado na doca vicinal.
— Que cheiro é esse? — perguntou, franzindo o nariz.
— O Carlos tá secando as roupas. — Seya apontou para o feiticeiro, que estava agachado, ajeitando suas vestes.
Éllie estreitou os olhos.
— Como pode um feiticeiro se urinar durante o sono?
Seya exalou ética ao responder:
— Rum! Com “R” de “ridículo”!
Carlos sorriu de forma estranhamente genuína, sem desviar os olhos do guerreiro.
— Você não bebe, guerreiro? — O feiticeiro encarava seu passado pelos olhos.
Seya hesitou.
— Eu… não me lembro.
— Então, não me julgue. Só a pequena pode fazer isso. — Retrucou o feiticeiro.
Éllie concluiu com indecência inocente:
— Não me importa a memória de Seya. O que sabemos de verdade é só o presente. O futuro é incerto, e o passado já se foi.
Carlos sentiu-se obrigado e explicou da maneira mais polida que se era possível:
— A blindagem é forte demais. O álcool entra, mas não sai.
Seya piscou, confuso.
— Isso é um ensinamento ou uma confissão? — Éllie sorriu, cruzando os braços. — Isso é ainda mais nojento, feiticeiro!
Carlos ergueu o cantil, já no segundo gole.
— Nisso, menina, nós concordamos.
Com o aproximar da embarcação, Èllie exigiu um pragmatismo educado.
— Coloque suas roupas, Carlos. Provavelmente, uma mulher vai nos receber.
O pedido foi genuíno, e, surpreendentemente, o feiticeiro obedeceu sem reclamar, elevando seu caráter.
— Como sabem que são mulheres? — Questionou Seya, também embriagado; uma mistura de estupidez e desconfiança, irmãs muito semelhantes.
Éllie apontou para a embarcação:
— É uma Caravela Escarlate.
Seya arqueou uma sobrancelha.
— Isso é bom?
— São as magas mais elegantes de Artha! — Èllie corou.
Seya se tranquilizou.
— Ladras de crianças… — Carlos murmurou para si mesmo.
— Oi?! — O gigante questionou.
— Boatos… — O feiticeiro camuflou a crítica. — Muita mulher junto. — Concluiu.
Mas os rumores de Artha nem sempre eram jocosos. Diziam que os Banidos roubavam crianças para consumi-las, enquanto as Escarlates as tomavam para si. O destino de uma criança perdida nunca era certo.
De qualquer maneira, não foram os boatos que as glorificaram.
Frequentemente aceitavam missões envolvendo crianças e reduziam os captores a pó. Não deixavam corpos, nem testemunhas.
A simples presença de uma escarlate era suficiente para encerrar qualquer ensejo de maldade. As Ladys já haviam se consagrado “Especialistas em mercenários”, mas não em suas capturas.
A maioria de suas batalhas era travada nos mares. Suas colegas de Guilda ostentavam feitos semelhantes, portanto, não era estranho ver uma Caravela Escarlate ancorada em uma doca fluvial da Aliança.
Éllie caminhava em direção à séd, ansiosa para saber se sua carta havia surtido efeito. Não aguentou esperar pelos homens ou talvez temesse por suas educações.
O vento da Hébria não machucava seu rosto. O ar, no entanto, cobrava o preço no peito. A colina era tão íngreme quanto sua empolgação, mas seus joelhos não compartilhavam do sentimento.
Èllie escutava a própria respiração superar o assovio do vento. Em nenhum momento o sorriso involuiu de sua expressão.
Ao dobrar a última curva, parou de súbito. No alto de uma pedra, uma figura peculiar a observava sob postura relaxada e confiante. Não vestia a blindagem escarlate, mas havia algo nela—um magnetismo sutil, um resquício de magia que prendia o olhar.
Éllie se aproximou empolgada.
Desceu o restante da ladeira segurando os vestidos. Uma lady de lugar nenhum.
Mais próxima, a pequena estranhou, a figura não parecia uma adulta e sim uma “Quase-mulher.”
Isso não diminuiu sua empolgação.
Se aproximou ainda mais e sentiu o vento mudar. Talvez fosse magia ou talvez só impressão.
A jovem era mais velha que Éllie. Vestia um traje vermelho e branco, e um chapéu ridiculamente grande adornava sua cabeça. No pulso, duas cicatrizes horizontais e paralelas brilhavam na mesma cor dos bordados.
— Você é Éllie? — perguntou a figura enigmática.
— Sou, sim! Eu deixei uma carta etérea na séd… acho que foi assim que você me encontrou, não foi?
A jovem sorriu, inclinando levemente a cabeça, como se já soubesse o que Éllie diria.
O vento levantou uma fina cortina de neve ao redor dela antes que finalmente respondesse, com um brilho curioso no olhar.
Apontou para o mapa nas mãos de Éllie.
— Acho que vocês vão precisar de um mago.
Éllie demonstrou admiração.
Mas a cena foi roubada de supetão.
O chapéu tremeu de leve.
Então, com um longo bocejo preguiçoso, se esticou como se despertasse de um sono profundo.
Patas se projetaram onde antes havia apenas tecido. Uma cauda surgiu, ondulando no ar.
Não era um chapéu.
Era um gato.
Um felino tricolor, preto, branco e amarelo, se inclinou para falar:
— Você não é uma maga, Aíísha. — disse ele, lambendo a pata com desdém.
— É uma aprendiz.
A jovem franziu o cenho.
— Fica quieto, Taffarel! Você quer voltar para o barco?!
O felino mudou de expressão instantaneamente.
Pulou para o chão, rodopiou sobre si e deitou-se na lajota fria e clara.
Éllie arregalou os olhos, surpresa, e Aíísha, por outro lado, corou de vergonha.
— Que lindo seu gatinho! Ele morde?
A aprendiz suspirou, exasperada.
— Não… Ele julga


