Capítulo22


Frondas da Verdade

O amor que luta cansa, mas é tolo o coração”

— Lady Tereza, Madre, “Senhora” do Sacrifício.



*Este capítulo aborda temas sensíveis. Embora meu universo seja de fantasia, os casos clínicos são assustadoramente reais.*

A vida na Cassiana era mais dinâmica e agitada do que em suas regiões vizinhas. Eram comerciantes inatos e excelentes navegadores. No entanto, a característica destacada dos Cassianos era a caça.

Conhecidos pela habilidade até mesmo antes dos dragões, eles não se limitavam à caça de animais terrestres. Predavam criaturas marinhas e voadoras com certa facilidade. Seu sangue era naturalmente impregnado de dinastias de caçadores.

As crianças eram ensinadas desde cedo, meninos e meninas, sem separação alguma. Aprendiam os mecanismos básicos do ofício e eram orientadas, desde cedo, a causar o menor sofrimento possível em suas presas, como forma de respeito à natureza.

No entanto, esse dogma se aplicava apenas a criaturas não hostis, pois também caçavam monstros e feras por toda a extensão da Aliança, sendo responsáveis pela extinção de algumas delas.

Aprenderam a respeitar a natureza após perceberem o quão delicado o equilíbrio natural era.

Quando as criaturas mágicas apareceram, após o Descenso, os Cassianos logo se empolgaram e as caçaram sem pudor.

Não dominavam a agricultura para se fixarem, assim como os hébrios.

No início, eram povos nômades que se agrupavam em tribos e constantemente se enfrentavam. Hábitos que mudaram com a chegada dos dragões.

Povos desunidos eram presas fáceis.

Não só para os predadores naturais, mas para outros humanos.

Narcisistas e orgulhosos, dificilmente reconheciam seus erros e tinham sérios problemas com hierarquia e autoridade.

Ópulos os desolou de maneira pedagógica, unindo os humanos sob a mesma classificação de presas.

Após a Primeira Guerra, seus hábitos mudaram e o Estado da Cassiana tomou forma, porém o temperamento orgulhoso e prepotente não os havia abandonado.

Eram comuns as brigas matrimoniais, e a violência doméstica era ímpar e bilateral. Marido e mulher trocavam socos com naturalidade, e existiam relatos equivalentes de crimes passionais. Não perdoavam a traição.

Os shamãns, sempre sarcásticos, teciam justificativas jocosamente verdadeiras sobre as mulheres Cassiana. Diziam que os Cassianos produziam os melhores venenos, pois eram exímios caçadores — e suas mulheres, bastante vingativas.

Uma sociedade violenta se perpetua em violência, e mesmo os nascidos pacíficos sucumbem a uma hostilidade tão passiva.

Uma mulher havia nascido nesse meio e com essa herança. Era a quinta de uma prole de cinco, mas não havia recebido as benesses das filhas mais novas; pelo contrário, seria entregue para o sacrifício, assim como sua irmã mais velha fora.

Nesta época, a desigualdade ainda era mandatória na Cassiana, ao serem os últimos a dominarem o cultivo e sofreram muito com os desbalanços da natureza.

A menina não recebeu um nome, assim como sua outra irmã. Era jovem demais e mal podia andar, quanto mais perceber a situação de desgraça à qual estava fadada.

Uma carroça elegante veio buscá-la. Mais de quatro cavalos serviam de arranque, e disso ela conseguia se lembrar nitidamente.

Não foi comprada para o sacrifício, e sim para a escravidão. Uma família mais rica havia solicitado a criança como pagamento de uma dívida antiga. Seus pais se sentiram aliviados, pois não são muitos os destinos piores do que a morte. Tolos e inocentes.

A criança foi enviada para o norte da Cassiana e foi agraciada por uma família gentil. Escravocratas gentis — grandes questionamentos humanos.

Cresceu junto das pequenas da família importante e, conforme envelhecia, exercia trabalhos diferentes.

Na puberdade, foi amaldiçoada com a beleza. Um quadril escultural, seios avantajados e um rosto ridiculamente bonito, mesmo usando a maquiagem do pó e da sujeira.

Antes de se tornar adulta, passou a exercer uma função diferente — a única que ela desgostava.

Seu lorde tinha um apreço especial por ela e a procurava na ausência de sua esposa.

Estuprava sua criada de maneira “gentil”, apenas pedindo que ela não fizesse barulho. A pequena aprendeu a se urinar durante o ato para prejudicar a atitude de seu senhor. Foi aí que as agressões começaram.

Mas o destino é roleta e ninguém escapa de sua aleatoriedade — ou talvez seja apenas uma entidade fabricada para que homens tolos despejem sua culpa.

A esposa percebeu as marcas na criada e tinha carinho por ela, pois também havia sido criada junto das filhas.

Sábia e vingativa, a senhora aguardou nos aposentos da criada e pediu que ela não dissesse nada. Também solicitou silêncio da pequena.

Quando o senhor se aproximou, no escuro claro do começo da noite, sua esposa emergiu das sombras e o degolou em cima da jovem menina.

— Porco imundo — disse.

Embora soubesse da inocência da jovem, a esposa assinou seus papéis e lhe devolveu sua liberdade — algo que nunca deveria ter sido tirado dela.

Desgostosa e quebrada, a mulher se mudou para o leste da Mariana e cortou os cabelos curtos para tentar esconder sua beleza — mas era impossível. Suas curvas eram suficientes para destruir casamentos.

Procurou emprego honesto para existir em paz, mas eventualmente se via em situações semelhantes — com exceção da degola. As mulheres marianas são infinitamente mais mornas do que as Cassiana.

Não via beleza nos homens. Não conseguia admirá-los. Apenas temê-los.

Conseguiu emprego em uma taverna particular — uma espécie de clube para grandes figurões da cidade.

A riqueza, às vezes, traz educação — e, nesse emprego, ela durou. A dona do estabelecimento era uma mulher e entendia muito bem os perigos de ser bonita e sem família. Poucas experiências seriam benignas.

A dona a deixou morar ali, na instalação, no último quarto — o que ela ainda não havia reformado.

Uma noite, ela se viu em perdição. Seus olhos perceberam a beleza dele. Era grande e musculoso, com a mandíbula protusa. Cabelos castanhos longos e a barba por fazer. Vestia roupas de gente rica e seu sorriso era bastante cativante. Claudicava de uma perna, mas até isso a mulher achou sedutor. — Tem sua própria marcha — dizia.

Ela pediu informações sobre o sujeito à sua chefe, quando a mesma respondeu:

— Aquele é um alto militar da Mariana.

As palavras foram o suficiente para apaixonar a mulher. O coração confunde admiração com amor o tempo todo.

O alto-forte militar havia herdado uma pequena embarcação de seus avós. Era órfão dos pais desde muito cedo e havia se dedicado à carreira militar marítima, até se ferir em um combate náutico, onde teve seu joelho invalidado por uma flecha — fato que ele contava com orgulho e tristeza. Sentia falta do mar.

Foi condecorado pelos militares e realocado no departamento de fronteiras. A maioria dos militares excelentes morria ou se aposentava em cargos burocráticos muito cedo.

Talvez a ousadia e a irresponsabilidade fossem características necessárias para guerreiros prodígios.

Ela trocava olhares com o guerreiro todas as noites em que ele comparecia e já havia questionado se era casado. Sua chefe disse que não.

Uma noite, ele compareceu sozinho à taverna e sentou-se junto ao bar, onde os dois trocaram conversas deliciosas que pareciam perfeitamente complementares.

Um interesse mútuo fluía em seus discursos, ao ponto de se apaixonarem e perceberem.

Ela não bebia, mas naquela noite ele ofereceu — e então ela aceitou.

O vinho é tão mágico quanto os dragões.

Os dois passaram a se encontrar com frequência, e o homem já havia gerado lucro interessante para a dona, pois todas as noites ele bebia junto de sua funcionária.

A própria empresária empurrou o relacionamento adiante:

— Vocês não vão se casar?

A frase foi a roupagem óbvia com que se sentia ausente. Talvez nenhum deles tivesse coragem de se oferecer ao matrimônio, ou eram apenas jovens e inexperientes demais para um planejamento a dois.

Casaram-se de maneira simples, quando a dona do estabelecimento fechou as portas em uma noite bastante movimentada.

— Hoje teremos uma festa particular! Cerveja e vinho por minha conta! Estão casados estes dois! — dizia, enquanto abraçava o casal.

A mulher sabia estar apaixonada, pois o simples toque de seu amado pacificava sua alma em extensões de calmaria que só existiam na presença dele.

Perto do homem, tudo parecia seguro e óbvio. Confiava sua vida na dele e sentia reciprocidade na mesma amplitude. Suas águas estavam sempre se equilibrando na temperatura mais amena para ambos.

Naquela noite, ela levou embora suas coisas e seus sonhos de menina — todos guardados na mesma caixa.

Inocente, o humano apaixonado.

Suas mãos tremiam enquanto ele se oferecia para carregar suas coisas.

— Eu não vou mais trabalhar aqui, minha senhora — disse Cecília.

— Eu imaginei que não. Te invejo, jovem. Já tive sua ambição e a perdi em algum momento — sua patroa respondia. — Eu não quero que você sofra o que eu sofri, Cê.

A proprietária não conhecia o passado da jovem e provavelmente se envergonharia caso o fizesse. O pretérito da empresária nem subiria no ringue com o da jovem mulher. Eram de pesos diferentes, mas Cecília manteve o silêncio.

A dona da taverna havia fracassado dois casamentos e nem saberia dizer quem ficou com a maior parcela das culpas — não importava.

O fim é só ele, e não carrega características.

Como proprietária da noite, ela aprendeu uma maneira fácil de manter homens “domados e encantados”. Foi servindo álcool a eles que descobriu as suas simplicidades rasas, também conhecidas como “Masculinas”.

— Desisti de me casar quando percebi que o verdadeiro amor dos homens é para com a bebida, cavalos e guerra — havia dito a Cecília certa vez. Mas seu amado tinha temáticas mais maduras e envolventes.

Seu, agora, marido falava sobre pescarias mágicas e missões de suporte como meio de vida. Relatava que, mesmo com “meio joelho”, ainda poderia conduzir qualquer embarcação em Artha. Só precisaria de uma tripulação.

Eles chegaram à casa moderna ao final da rua do porto. Uma construção clara, com telhado vegetal acima do forro — estilo córvio de arquitetura.

O pé-direito da construção tinha o dobro da altura costumeira e o vento soprava gentilmente o calor embora. As janelas eram grandes, e uma delas possuía uma vista ridiculamente bela para a baía.

A cama também era muito mais confortável — e elevada do chão — diferente de seu colchão improvisado de maneira rasteira na taverna. Nunca havia se deitado com tanto conforto. Também jamais havia convidado um homem para seu repouso — mas não era a primeira vez que o fato acontecia.

A magia do trauma e a força do esquecer são armas poderosas, mas seus coices podem matar.

O primeiro mês foi maravilhoso, pois a vida sexual consegue carregar um relacionamento por tempo determinado — mas não é o sexo quem lhe garante eternidade.

Seu marido era encantador. Acordava cedo e preparava o café de maneira taciturna para não a acordar — mas era desastrado, e sempre o fazia.

Ela não se importava, e até fingia estar dormindo para admirar o cotidiano honesto daquele homem — mas nunca o deixou perceber. Era excelente atriz.

Também escondia que suas noites de amor eram menos interessantes para Cecília, pois, de maneira intrusiva, a imagem de seu primeiro senhor era vinculada ao seu marido durante o sexo.

Fato que a fazia chorar — mas, quando questionada, dizia “ser chorona mesmo”, emulando uma fragilidade que não possuía.

Aquela jovem mulher era uma fortaleza escura e labiríntica disfarçada da maneira que apenas as mulheres têm a sensibilidade necessária pra tal.

Depois de algumas noites, logo engravidou. Ficou muito feliz quando seu sangue parou de descer, e logo sentiu suas mamas incharem. As náuseas e as dores de cabeça também se tornaram diárias — mas ela, como mulher, sabia que era necessário aquele sacrifício e sentia-se na obrigação materna.

O homem não demonstrou tanta felicidade com a notícia, e Cecília o sentiu estranho. Já haviam conversado sobre a gestação e o cunho de um legado, e seu marido nunca havia demonstrado tal estranheza.

Nos primeiros meses, eles continuaram tendo relações, mas a figura intrusiva tornava qualquer encontro íntimo um ménage.

Fato que passou a incomodá-la. Além disso, apresentava os sintomas da gestação que muito se assemelhavam aos de uma doença — pois o feto nada mais é do que um parasita no corpo da mulher. Em termos técnicos.

O homem não conseguia entender o baixo apetite sexual de Cecília. Uma mulher de passado quebrado e gestante.

Mas ele não sabia sobre os estupros do passado, e a mulher tinha medo de revelá-los — pois estranhos são os homens que conseguem perder a posse do que querem ao entender suas características.

Tinha medo de gerar nojo — uma vez que ela mesma o tinha.

Uma noite, seu marido a beijava enquanto ela dormia e, ao descer a região do beijo, encontrou os seios de sua amada, mais fartos e volumosos.

Ao beijá-los, o leite escorreu em sua boca — e aquilo o desconfortou de uma maneira única, pois seu estômago devolveu a janta da noite anterior.

Daquele momento em diante, seu marido voltou a habitar as tavernas e chegava tarde da noite em casa. Às vezes, nem retornava.

Seu trabalho, predominantemente burocrático, lhe dava certa flexibilidade — pois não passava de um encosto do exército, recebendo ouro pelo sacrifício. E ele sabia disso.

Talvez fosse uma de suas justificativas para beber.

São poucas as motivações legítimas do viciado.

A mulher entendeu que talvez o homem tivesse se apaixonado por ela em função de sua morada. Ela residia na taverna, e o homem encontrava dois coelhos para cada cajadada.

A “moça da taverna” era mais interessante do que a “Esposa Cecília”, e isso foi se tornando claro conforme sua gestação evoluía.

Ele espaçava suas “viagens de negócio” e dava zero satisfações para sua esposa. Foi se tornando cada vez mais ausente.

As histórias de batalha do guerreiro aposentado não mais significavam hombridade e honra, e uma certa aura de hipocrisia — invisível antes — agora era vista por Cecília.

O coração confunde admiração e amor o tempo todo.

Desde a “leitada”, eles não se procuravam na cama, e o corpo voluptuoso de Cecília agora era o corpo de uma gestante. Sua fome havia aumentado muito.

O desgaste da gestação e o arrependimento do casório encontravam asfixia na fome e na comida, e a mulher apresentava algum sobrepeso. Pouco perceptível, mas seu marido fazia questão de lembrá-la em qualquer ocasião possível.

— Você engordou?

Em determinada altura, ela fez o questionamento atrasado — o que deveria ter feito antes:

— Seria possível encontrar um bom marido em uma taverna?

Seu homem era uma espécie de colega de quarto, pois mal se falavam durante a gravidez, e Cecília não via mais diferença entre um homem ou outro. Invejava os casais felizes, mas também ponderava o quão verídicos eles seriam — pois ela mesma jamais havia criticado seu marido, e, nas poucas vezes que saíram juntos durante a gestação, ambos se mostravam felizes para seus vizinhos e conterrâneos, como se fosse uma obrigação disfarçar o fracasso matrimonial.

Era mais custoso fingir do que terminar, mas, estranhamente, optavam pela primeira escolha. Pelo menos era assim que ela pensava agora.

Mantinha a ilusão de que o bebê seria ponto de ignição para uma mudança na vida do casal, mas passou sua gestação toda suspeitando do amor do marido e, quando percebeu, a reciprocidade havia sumido — e agora ela carregava o amor dos dois, sozinha.

A sentença final veio do médico:

— É uma menina.

A expressão de desgosto do homem foi visível, e Cecília poderia arriscar e acertar os discursos que ele ensaiava em silêncio: “Eu queria um guerreiro”, “Mulheres não navegam”.

Seu marido o foi por mais alguns meses, mas não tolerava a presença da criança em sua casa.

“Faz ela parar de chorar” logo se transformou em: “Faça ela parar de chorar antes que eu o faça”, e a bebida agora habitava o interior da casa, pois seu marido havia sucumbido ao vício e nem mesmo procurava tavernas. Agora, ele o fazia em casa.

Cecília passou a possuir pensamentos perversos e maléficos em sua mente, mas poderia jurar que não lhe pertenciam. Já havia ouvido falar sobre os “sussurros do puerpério” mais de uma vez, mas só os entendeu quando se apresentaram.

Ela amava sua filha, mas os pensamentos sempre envolviam sua morte brutal, e ela chegava a bater com a cabeça na parede numa tentativa de afastá-los. Talvez fossem culpa do marido horrível, ou talvez fossem fisiológicos e naturais. Sabia que passariam, mas sua realidade os tornava mais firmes e frequentes.

Certa vez… teve uma espécie de apagão enquanto tentava conter o choro da pequena. Quando recuperou a razão, a criança já estava arroxeada, e sua mão tampava sua boca e nariz. Sentiu-se monstruosa e odiou a sensação.

Seu ódio era natural, mas não o dominava, pois apenas parte dele era legítimo.

Indagava a metamorfose de seu amado:

— Como podem os homens ser tão rasos e mesmo assim se afogarem?

Próximo ao primeiro aniversário da criança, Cecília já havia recuperado seu belo corpo. Mesmo assim, seu marido demonstrou desinteresse.

Agora, todas as suas esperanças haviam se esgotado. Havia percebido que o homem estava apenas esperando a melhor oportunidade para evaporar.

Ele fora aposentado oficialmente, pois, além de manco, comparecia bêbado ou de ressaca nos escritórios — e aquilo retroalimentava sua compulsão.

Uma noite, foi embora e não voltou mais.

O fato não causou espanto, pois Cecília já sabia que essa seria a resolução óbvia.

Seus pensamentos intrusivos, seus sussurros, passaram de sintomas para realidade, e agora ela flertava com eles. Conhecia suas ilusões, mas havia se acostumado com aquela companhia. Sua loucura jamais a abandonaria.

Estava sem comer e cuidava muito mal de sua filha, pois havia aceitado a maldição volitiva e suas vontades se limitavam cada vez mais.

Com medo de sua razão rachada e sem capacidade de amar, resolveu enviar sua criança para um destino mais digno — uma guilda mágica ou um orfanato. Temia ser ela mesma a assassina daquela criança.

Era um paradoxo infinito. Tornou-se uma monstra na tentativa de evitar tal destino. Acreditava que matar a criança e abandoná-la eram coisas diferentes — mas a culpa da mãe é sempre imortal.

Encontrou facilmente destino para sua pequena e não pensou mais de três vezes enquanto juntava suas coisas para entregá-la no cais.

No cais, estranhou a ausência de mulheres na embarcação. Os marujos estavam armados.

Perdeu-se no automático da existência e, quando percebeu, já havia entregado sua pequena nas mãos calejadas de um mercenário.

O instante demorou para sempre e, de tanto se culpar, escapou da própria percepção.

A escada de volta para a realidade tinha um tom fracassado, pois agora ela havia se consagrado como uma mãe horrível. Havia se tornado a sua.

Ao se recuperar, gritou:

— PIRATAS, ASSASSINOS, TRAFICANTES!

Em um lapso de plenitude e coerência, mas com pouca inteligência.

No entanto, as palavras funcionaram como um ritual pessoal, ao lavarem parcialmente a sujeira do arrependimento que impregnava sua alma.

O barulho do mar e a posição estratégica da embarcação não lhe favoreceram, e o mesmo homem que havia recebido sua criança a golpeou na cabeça e a arrastou para dentro da embarcação.

Despertou em alto-mar, em meio a uma tempestade. Não se encontrava amarrada, mas estava nua e suada. Questionou se havia sido usada novamente.

Colocou um sobretudo e caminhou em direção ao convés, pois havia gritos e rangidos de metal ecoando pelos corredores de madeira.

Uma forte pancada atingiu a embarcação, e Cecília caiu no chão.

Ao se levantar e alcançar o convés, percebeu que outra embarcação menor havia emparelhado com a sua — e fogo habitava as redondezas.

Chegou a tempo de ver Lady Thayanna queimando o capitão vivo — e reparou que ele tinha um joelho torto.

A figura da maga parecia embaçar seu campo de visão. Esfregou os olhos, mas não adiantou.

Dobrou o tempo e fez os segundos se eternizarem em sua mente, pois não tinha mais força ou vontade para conjunturas — mas aquela seria importante.

— Será que meu ex-amado aderiu a práticas tão rasteiras?

A maga havia incinerado vivo aquele capitão e não lhe deixou oportunidade para reconhecer o corpo.

Ela sabia que o simples fato de conseguir questionar o caráter de seu marido já era suficiente para desgostá-lo.

— Uma das crianças é minha — disse Cecília.

— É sua o quê? Sua frase já terminou, mulher?

Thayanna, nessa época, tinha pouca ou nenhuma compaixão por pessoas desesperadas e rasteiras, e nem se deu a chance de ponderar sobre a mulher. Provavelmente achou que fosse uma puta. Mas não era.

— Eu não posso chamá-la de filha. Perdi esse direito.

A imagem da maga era maravilhosa. Suas mãos não podiam ser vistas, pois se perdiam nas sombras de suas vestimentas, e ela parecia estática. Apenas seus cabelos castanhos se esvoaçavam ao vento — da mesma cor dos de Cecília.

Quando seus olhos se encontraram no encarar, uma sensação estranha e bilateralmente percebida habitou o instante.

A maga e a mulher dividiram um sentimento estranho que nunca haviam sentido antes.

— Você poderia fazer o favor de me matar? — Cecília encarava Thayanna.

O pedido pareceu legítimo e estranhamente crível.

— Eu não mato inocentes.

— Eu não sou inocente, maga. — Cecília devolveu.

— Não é sobre essa inocência que eu me apoio, mulher. — Thayanna respondeu.

— Sou uma cassiana e, agora, nem mesmo a vingança me pertence mais. — Cecília olhava para a alma de Thayanna.

A escarlate adotou o sotaque do silêncio.

— Sou Cecília.

A maga não se abalou.

A mulher não era tola nem burra, e sabia que não haveria outra maneira de realizar seu desejo.

Rapidamente, a faca do chão agora habitava suas mãos e disparou com ódio legítimo contra sua própria filha. Sabia que a maga não correria o risco de apostar contra sua loucura. Seus passos foram ouvidos acelerando ao tocarem a madeira molhada do convés. Chegou a escorregar no primeiro impulso.

Seus olhos vermelhos refletiam a dor de uma vida, e mais se assemelhavam aos de um animal em rompante.

Ao se aproximar da criança, ela venceu sua própria aposta, pois Thayanna a incinerou com três ou quatro palavras balbuciadas — e suas mãos nem ao menos precisaram se mover.

É mais fácil matar o que quer morrer.

Cecília era tão machucada que morreu em silêncio.

Uma energia mística, diferente e única, emanou do corpo da mulher e se enfiou sem convite no corpo da escarlate.

Percebeu-se empoderada, mas, pela primeira vez, notou a mana como coisa física.

Parecia estar escorrendo de suas mãos feito água, que, por motivos desconhecidos, não podia ser manipulada.

Um sentimento de completude e destino habitou Thayanna. Algo a mais havia acontecido.

Sentia até mesmo o fogo e o relâmpago que não lhe pertenciam, como se agora enxergasse a magia toda de forma única. Entendeu-se parte importante da natureza de um jeito difícil de explicar e, mais interessante ainda, não se sentiu desumanizada, o que era contraditório.

A maioria dos magos perdia a humanidade conforme se elevava.

O som dos ossos de Cecília estralando, incinerados, pautava o ritmo de sua curiosidade.

— O que havia acontecido? — pensava.

Ela conduziu as crianças para sua embarcação, onde um pequeno grupamento escarlate geria o navio. Desamarrou as crianças e as colocou em um cômodo confortável e quente — com exceção da filha daquela mulher. Disse aos marujos escarlates que aquela criança seria levada à Guilda, pois sua mãe havia falecido no embate. Eles não estranharam; aquilo não parecia inédito.

Levou a criança até a Guilda e registrou-a sob outro nome, alegando ser necessário o sigilo.

— Qual será o nome da criança, Lady Thayanna?

— Cecília.

Não era uma homenagem. Era uma dívida.



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