Lady Catarina, A Senhora da Tempestade
“Quem não tem nada entrega tudo facilmente”
— Lamour, o Dragão gélido.
Catarina olhou o convés como quem vislumbra um pesadelo, daqueles mais horripilantes da vida, lembrado para sempre.
Não havia corpos nem manchas de sangue, somente oito sukisêra fechadas com jarros grandes às suas frentes. Todos os jarros estavam completos e repletos de sangue humano, com exceção do último, que ainda terminava de escoar.
— Vai faltar sukisêra, senhor. — Constatou um dos marujos, com as mãos e unhas manchadas de sangue.
— Esvazia as duas primeiras. — Ordenou o Mago.
O marujo abriu o primeiro caixão. Retirou o pequenino cadáver dos espinhos da engenhoca. Seus olhos estavam sem cor. Os braços ainda balançavam. Demorariam para endurecer.
Atirou o corpo ao mar. Não havia remorso e nem cerimônias.
Nííhmonas estava em uma gaiola de metal, aparentemente feita para as crianças, inerte e pasmo, como Cath jamais havia visto.
Catarina não conseguia pensar, foi seu último minuto desse jeito, boba e desarmada. Fracassada. Interrompida. Vencida. Odiada. E, ainda, necessária.
— Diga-me, guerreiro, está pronto para dizer qual dessas é sua senhora? Eu ainda sinto a mana aqui. Difícil dizer com tanto sangue precioso, mas por via das dúvidas, vou lhe dar outra chance. Qual dessas é sua, senhora?
Catarina conheceu o mago.
Um senhor idoso, de barba longa e cabeça calva, mesmo não aparentando idade para isso. O que lhe restava de cabelo era da mesma cor de sua barba, um negro quase azul, quase cintilante.
Vestes escuras, sem detalhes, adornos ou bordados. Talvez para não evidenciar as manchas de sangue. Seus olhos eram hemorrágicos, sanguíneos, como os daqueles que flertam e enamoram com magia de sangue demasiadamente.
Cheio de tremeliques e movimentos involuntários, como se a magia de sangue já estivesse tomando sua mente.
Usava uma luva, com os dedos à mostra e, diferente do marujo, não havia sangue em suas mãos.
Não tinha nenhum códex ou catalisador, nenhum detalhe que fizesse possível seu rastreio, como sendo de uma guilda ou de outra. Um Djorkaeff. O círculo era indeterminado, pois, quando se usa magia de sangue, não existem muitas diferenças de poder. A qualidade do sangue, na maioria das vezes, determina o vencedor do embate.
Somente na maioria das vezes.
Ao redor do mago portava-se mais dez ou quinze marujos, todos armados de espadas lythium. Apenas vestindo máscaras em suas faces. Um pano qualquer com dois furos para os olhos. Uma vestimenta estreita o suficiente para não deixar os orifícios dançarem e prejudicarem a visão. As cores e os formatos eram todos irregulares.
Catarina engoliu seco e viu Nííhmonas mais ensanguentado ainda. Tentou gritar, mas não saiu. O medo que julgava incapaz de lhe incapacitar havia vencido e evoluído. Agora estava em pânico.
O mago sabia que o Kalheid não poderia revelar sua senhora e, por pura crueldade, executou dez crianças na frente de Nííhmonas que, na primeira criança, mordeu e cuspiu a própria língua fora e, de maneira neurótica, assumiu o sorriso no rosto. Como se fosse um disfarce da realidade. A partir dali, estava apenas atuando, era apenas um personagem.
Tristeza demais para um humano só.
A maga passeou os olhos.
Percebeu três riscos grandes entalhados na lateral de dentro do convés.
Aquela era a terceira viagem desse navio.
— Veja bem, guerreiro. Eu iria matar essas crianças de qualquer maneira, então, não se sinta culpado, tudo bem? — O cinismo do mago só não era maior que sua crueldade.
Ele estava torturando Nííhmonas, que se mantinha em silêncio absoluto, porém com um sorriso falso estampado em seu rosto. O guerreiro estava nu, trajando apenas o sangue que escorria de sua boca e as queimaduras tatuadas pelo seu corpo. Era uma casca vazia.
— Não temos muito tempo, guerreiro. Vai tirar a graça dos meus dois últimos assassinatos? O endorcai (navio de guerra) está encostando.
Nas costas do guerreiro, os clarões da tempestade começavam a desenhar o sombreado de uma embarcação colossal se aproximando, mas, naquela altura, o guerreiro não tinha percepção nenhuma. Orou sem querer para os dragões e para os Deuses antigos. Não obteve resposta instantânea.
— Deixo você escolher por mim, Kalheid. Ou será que eu me enganei? Será que nem existe escarlate aqui? Você pode ser apenas um louco que escolheu a noite mais errada de Artha para praticar. Ou não? — O mago se aproximou de Lady Catarina.
Apenas o barulho do barco de Nííhmonas batendo emparelhado no dos mercenários populava os ouvidos do convés.
— Vou escolher a mais alta, então. Será que, se eu matar sua senhora, você grita? — Questionou o mago.
Catarina ainda estava paralisada pelo medo, mas sentia seu corpo leve. questionou a si mesma: “Será que já faleci e estou revivendo minha última existência?”.
As imagens ficaram lentas e a leveza se esquentou e trouxe muita energia para o corpo da maga. Uma sororoca mágica estalou na Lady.
Seus músculos estavam respondendo diferentemente e ela agora estava incapaz de reconhecer os estímulos do ambiente.
Não conseguia entender aquela situação. Já havia passado por três ritus então sabia como era a sensação da morte, pelo menos em teoria. Estava digerindo esse tipo novo de sentimento. Não era bom nem ruim, era não-natural apenas. Parecia despersonalizada e tudo ao seu redor era óbvio, natural e pequeno.
Ela era tão pequena perto do resto e nunca havia percebido.
Agora sabia.
Como é pequeno o ser humano…
O marujo encostou no corpo da maga para encaminhá-la para sua sepultura, sua última cama, onde todas aquelas dez crianças foram sentenciadas e talvez, o mais nobre a se fazer, era ir com elas.
Quando os dedos da mão do bandido tocaram a pele molhada da mulher, uma faísca amarela vívida estalou e, por alguns segundos, ficou dia novamente.
Uma energia mágica amarela e branco tomou conta do corpo de Cath. O pulso foi tão forte e tão mágico que a colocou em pé num instante, mas apenas por instantes, pois, logo depois, estava flutuando a um palmo de altura.
Pairava o suficiente para ser percebida mágica, mas mesmo flutuando, estava da mesma estatura de Nííhmonas.
Os braços de Catarina se abriram automaticamente e depois se fecharam, novamente sem querer.
Seus cabelos estavam voando instavelmente, parecia que o vento se represava embaixo dela e subia bruscamente com seus fios sendo empurrados para cima, de maneira violentamente irregular.
Como se Nitch a estivesse segurando pelos cabelos.
Muita mana passou por ela, na forma do raio, energia amarela e branca, muito difícil distinguir.
— Qual é o seu nome? — Catarina se aproximou do assustado homem, os olhos da maga estavam brancos e sua voz havia voltado ao normal.
— Vicente. — Disse o bandido assustado.
Catarina não tinha interesse em rastrear aquele nome, tampouco investigaria qualquer ligação. Ela apenas queria saber o nome do primeiro filho da puta que ela iria fritar naquela noite.
Suas mãos tocaram o rosto pálido do amedrontado, sem culpa nenhuma, e não precisou de runas ou entoamentos para queimá-lo vivo. Um espetáculo da força da natureza. Reduzido a pó, literalmente, assustando o restante da tripulação. Dois marujos dispararam flechas na jovem Catarina e a primeira atingiu sua cabeça de raspão, o suficiente para fazê-la sangrar, mas não para matá-la e, em um segundo, entendeu que o destino estava lhe dando uma chance de se vingar.
A segunda flecha foi barrada pela blindagem absoluta, não se sabe se a maga a ativou a tempo, numa resposta automática ao barulho do gatilho ou se a própria magia do destino havia intervido.
Catarina olhou para cima, como quem vai pedir um favor ao céu, tendo sido retribuída.
Sua veste de refém, transparente e encharcada, já estava assim antes de voltar.
O segundo raio derrubou, em ordem, o mastro do navio e dois bandidos, que tocaram o chão com pequenos rastros de fumaça sobre suas, agora covas, no convés do navio. O vento varria seus restos mortais para a lembrança.
O mastro do navio caiu sobre as sukisêra e sobre os vasilhames de sangue, espalhando-os pelo convés junto do fogo.
O mago, agora desesperado, provavelmente assombrado pelo despertar da oponente, lambia o sangue do chão próximo aos seus pés, mas era tarde demais. O precioso néctar havia entrado em ebulição e desnaturado, ou pelo incêndio, ou pela magia de Catarina.
Encurralado, gritou pelo seu provável encarregado, sem dizer o nome dele.
A hiper-pensadora percebeu que o mago estava sob rito de segredo, pois sentia sua vontade de barganhar a própria vida, mas não podia e nem conseguiria.
O mago estendia as mãos para lançar sua fatídica bola de fogo em direção à Catarina, quem viu, assim como Nííhmonas, uma cor diferente e mais vívida naquele fogo, parecia uma magia condensada, superior à de sangue.
Em qualquer outra noite, aquela dor seria suficiente para desacordar Lady Catarina.
A blindagem absorveria o dano sob o custo da dor em dobro.
Naquela noite, Catarina era uma casca vazia a serviço da magia.
Parecia não se importar, mesmo assim questionou de novo sua existência e viu a vida toda passar em um segundo.
Por dentro e por fora. Sem se pertencer.
Extrínseca.
Voltou para a batalha e nada havia mudado, a dor era merecida e Cath recebia com gratidão e felicidade sádica.
Catarina pensou em acabar ali mesmo. Nííhmonas concordaria. Mas a criança, a verdadeira, merecia ser salva.
O mago demonstrou desespero e evidenciando seu provável motivo de banimento de sua guilda original. Os Magos não podem ser cagões desesperados pela vida, só Djorkaeffs tem um ego tão rasteiro e vil.
Numa mudança súbita das condições, a silhueta sombria emergiu de seus aposentos. Seu cheiro era mais forte do que o do sangue e madeira queimados.
Proporções que ultrapassavam as de qualquer guerreiro humano.
A armadura preta refletia perfeitamente a luz dos relâmpagos e das luas. Não usava capacete, mas um grande gorro preto cobria sua cabeça. Uma máscara inexpressiva quebrava o tom, o tornando assustador.
Possuía laterais internas que acompanhavam o desenho de um possível rosto. Duas fossas nasais discretas esculpidas. Não havia boca, apenas uma superfície do metal liso onde ela deveria estar.
Empunhava uma espada de fogo negro.
Um grunhido fez a lâmina emergir da guarda e o guerreiro segurava a espada com ambas as mãos.
Na presença da figura, o mago se encorajou, mas antes que pudesse voltar para a concentração de batalha, Lady Catarina já havia fritado mais dois de seus marujos, sob o mesmo método anterior, fazendo com que os restantes saltassem no mar, desesperados por suas vidas.
A maga se elevou mais ainda do chão e concentrou mais um raio em cadeia nas águas do mar, na direção da popa do navio, ceifando a vida dos assassinos fugitivos. A força da natureza foi tão forte que nem os peixes foram poupados. Segundos após o raio da maga, centenas de peixes e vida marinha boiaram em volta da embarcação. Assim como os mercenários foragidos.
Catarina voltou à altitude do mago e eles estavam agora separados por uma fronteira que o fogo havia desenhado cuidadosamente entre eles, rasgando o navio na diagonal igual.
Pouca ou nenhuma palavra foi dita durante esses instantes do combate. Catarina nem havia olhado para trás desde então.
A criatura se aproximou lentamente e, no primeiro passo, outro raio em cascata veio dos céus, eram muito rápidas as conjurações da maga escarlate.
A magia foi suficiente para incapacitar o mago e foi possível enxergar o relâmpago pular entre ele, o soldado desconhecido e alguns pássaros que passaram pelo campo de visão da maga naquele instante.
O mago sem nome estava de joelhos. Nunca havia visto poder tão puro.
Será que todo aquele sangue havia sido absorvido por Lady Catarina?
Sua blindagem se desvaneceu e sua força de batalha também. Havia sido vencido por uma maga escarlate, ferida e sob efeito de invisibilidade mágica.
A figura, bizarramente, não havia sido afetada pela magia de Cath e continuou caminhando, como se nada houvesse acontecido.
Ao passar pelo mago ajoelhado, ergueu-o pelo pescoço com uma única mão e sussurrou palavras e grunhidos indistintos em seu ouvido.
A máscara e a tempestade tornaram a ação muito pouco ilustrativa.
O mago teve seus olhos hemorrágicos transformados na cor preta e voltou a se ajoelhar, logo após ser largado pelas mãos do cavaleiro negro.
Seus lábios e seu nariz necrosaram e morreram instantaneamente, tornando-se uma carne preta com aspecto de estragada, antes de tocarem o chão. Cuspiu alguns dentes no chão para adequar seu novo aparelho bucal. Uma espécie de boca com dentes que lembraram o peixe Lampreia, precursor da Serpréia, amplamente caçada pelos Cassianos.
O cheiro antes sentido por Catarina havia se intensificado, um odor azedo que fazia seus olhos lacrimejarem ainda mais.
O mago, em sua nova forma, mais alta e musculosa, passou a andar de uma maneira mais primitiva e desengonçada.
Cath não reconhecia aquele cheiro e muito menos aquelas palavras, mas reconheceu a energia emanada pelo, agora vencido, feiticeiro. Um peso, uma preocupação terceirizada, de difícil explicação, tomou conta do.
A maga sabia: aquilo era um feitiço de condição única, magia de sangue primitiva e ancestral de muito difícil acesso e saber, ao ponto dela nem mesmo reconhecer a maioria das palavras.
Feitiços de condição, sinequanom, são encantamentos hemorrágicos para finalidades de controle, manipulação e chantagem.
Acompanhado do raio, e para preocupação da maga, outra embarcação emparelhou no navio inimigo, era um barco de apoio, enviado, provavelmente, pelo navio maior, mais distante da cena.
Novos inimigos subiam, bombordo e estibordo, assim como o hiper pensamento da maga, agora nutrido da mana mais pura, estava veemente.
Sem pensar mais de duas vezes, pegou a criança pelos cabelos e a arrastou para o interior da gaiola, onde Nííhmonas ainda estava em estado de choque.
Mais inimigos abordaram o navio, rápidos e sem máscara. Seus olhos frios brilhavam sob as armaduras de Lythium.
Catarina percebeu serem guerreiros de elite apenas pela maneira com que saltavam para o interior do navio.
O espaço da maga estava curto, mas ela já sabia o que fazer.
Fechou a porta da gaiola de lythium e olhou outra vez do céu.
Seus olhos lacrimejavam muito, chorou tudo que não havia chorado a vida toda.
O resto da musculatura do seu corpo estava inexpressiva, mas seus olhos, piscando branco e amarelo, não deixavam dúvidas sobre suas vontades.
Pediu para os deuses antigos e para os dragões, para qualquer um que pudesse lhe ouvir, nesse mundo ou em qualquer outro. Olhou para a criança atrás de si e se projetou nela — também havia sido resgatada de um navio de escravos.
Lembrou-se de sua madre. Lady Thayanna. Sua Senhora e mãe, pois o sangue, perto do amor, é apenas água.
Mais uma vez, Catarina fez a noite virar dia.
Embarcações aliadas foram vistas à distância. Os dois não se importaram. Morreriam ali.
Outro raio colossal rasgou os céus, maior que a embarcação, desta vez com tons avermelhados. Partiu o céu em mil pedaços, desenhando um mapa de luz.
Quando abriu os olhos, conseguiu enxergar melhor a cena toda, tudo em devagar, como se o tempo estivesse lentificado. Viu o raio pular mais uma vez, de mercenário em mercenário, igualmente, ninguém ficou com mais nem com menos.
As armaduras de Lythium foram excelentes condutores e péssimas ideias.
Todos viraram pó. Apenas Catarina, Nííhmonas e a criança permaneceram. Um milagre de magia e natureza.
Para o espanto de Lady Cath, nessa ocasião, a magia não surtiu efeito no inimigo e nem no antigo mago, que, ao perceber a condição de vitória, disparou na direção da gaiola de Catarina, correndo feito uma besta, usando as mãos para apoio e ultrapassando as cinzas de seus companheiros, armaduras de lythium vazias com resto de poeira dentro.
Outros oponentes abordaram a embarcação, a maga ainda só não havia desistido pelo seu treinamento, era uma porra de uma maga e estes não perecem como covardes.
A distância entre os dois foi vencida e a criatura cruzou a fronteira do fogo. Ao atingir o alcance, deu com seu corpo na gaiola que soltou faíscas e caiu aberta em frente ao humanoide.
Os bandidos passaram a disparar flechas na direção do grupo e Cath se colocou na porta da gaiola para bloquear as flechas com sua blindagem.
A besta golpeava Catarina sem se importar com a blindagem, precisava matá-la.
O mago arrastou Cath lentamente enquanto os inimigos se encarregaram de trazer a criança e Nííhmonas.
Quando Catarina cruzou a crescente fronteira do fogo, sendo arrastada, escutou o grunhido de um dos marujos, um grito de dor seguido de silêncio em meio aos pingos da chuva e dos trovões.
A gaiola estava sem Nííhmonas, apenas com a criança dentro. Catarina, novamente, sabia o que fazer.
Concentrou sua blindagem secundária na pequena criança, a tornando impérvia a ataques físicos, que, naquela situação, eram as únicas ameaças. Ela sabia que Nííhmonas não precisaria da blindagem. Sabia que Nííh não queria a blindagem.
Nu e vivendo uma mistura de doses letais de ódio e insanidade bem conduzidas, o guerreiro havia, novamente, abraçado a escuridão.
Sumiu do campo de visão adversário e não fazia barulho nenhum. Seus olhos eram feitos para isso.
Não precisaria de armas para o que precisava fazer e poderia muito bem morrer após fazê-lo.
Acompanhava as linhas irregulares do sombreado escuro na madeira, onde havia luz, não havia Nííhmonas.
Enquanto os olhos da figura e da besta procuravam pelo guerreiro, um dos marujos viu um brilho branco na escuridão em sua frente, não sabia, mas era o último brilho que veria na vida inteira.
Nííhmonas o puxou para o breu e bateu sua cabeça muito forte contra a parede. Aproveitou o atordoamento do miliciano e aplicou força oposta ao movimento da mordida, até separar a mandíbula do resto do corpo.
Os outros adversários dispararam flechas na direção do escuro, mas o guerreiro já não estava lá.
Deu a volta mais sorrateira de todas em torno dos caixotes e do mastro secundário, nu e invisível, longe do fogo.
Matou os três em poucos segundos, sem lâminas e sem muito barulho, como se tapasse suas bocas para morrerem em silêncio.
A figura caminhava em direção às sombras, também parecia não se importar com elas, porém, seu novo vassalo, o antigo mago, disparou em sua frente. O pobre coitado talvez não tivesse mais muito tempo para completar sua condição.
Assim que tocou a parte mais escura da madeira, Nííhmonas aplicou-lhe um soco, teve pouca ou nenhuma visibilidade, mas talvez esse tenha sido o soco mais bem dado da história de Artha.
Os dentes do mago foram engolidos, mas Nííhmonas tinha um final melhor para aquele adversário.
Quando a criatura tocou o chão não horizontal, Nííhmonas forçou sua mão fechada para o interior da boca da criatura, até que sentisse o ar parando de passar, como se seu punho houvesse se tornado a rolha que separava a vida e a morte daquela criatura.
Isso não seria o suficiente.
Enquanto morria, a criatura teve os olhos perfurados por Nííhmonas. Seus dentes haviam retalhado seu pulso e punho, mas ele não se importava.
Não naquela noite.
Após cegar a criatura, arrancou sua língua com a mão que estava dentro de sua garganta e apalpou suas partes íntimas. Queria emascular aquele filho da puta antes de morrer, porém, não encontrou pênis ou vagina.
Decepcionado, atirou o corpo da criatura para o feixe de luz e se preparava para enfrentar o próximo.
Apoiado em um joelho.
Vestido de noite e sangue escorrido.
Catarina havia sucumbido, estava sem energia e sem mana. Caiu no chão, sendo amparada pela criança. Seus olhos estavam abertos, mas agora a derrota parecia iminente.
A situação pareceu desgraçada.
A figura, claramente, não era um mago. Um mago saberia que, se uma escarlate sucumbe, a energia de seu Kalheid aumenta instintiva, natural e magicamente.
Tolo.
Tentou se debruçar na vulnerabilidade da maga ao chão, no colo da criança e cercada por fogo, mas Nííhmonas foi duas vezes mais rápido.
Como o vento, e sem barulho nenhum, atravessou a figura no sentido de onde estava para onde Catarina repousava.
Dois cortes foram executados, mas apenas um foi percebido.
Sua máscara agora havia caído no chão, pois a parte inferior fora cortada por Nííhmonas, revelando uma boca semelhante à do antigo mago, agora falecido no chão.
O outro corte, porém, não foi sentido pela criatura, mas decepou sua mão esquerda que estava agora repousada no deck.
A figura emitiu um grunhido quase inaudível, pegou seu membro decepado do chão e se afastou.
Nííh estava pronto para mais, era certo que morreriam ali, e aquele final pelo menos tangenciava as atrocidades cometidas, mas jamais as apagariam.
Nem queria sobreviver. Apenas morrer.
Se pudesse ter entregado Lady Catarina na primeira criança, talvez o fizesse.
Não sabia dizer se foi pelo juramento ou pelo feitiço, pois a poção havia sido ingerida por Cath. Pensou que aquilo era a sororoca dos Kalheids, o Allnidorah (entregar a vida), mas, se fosse, estava muito longe de ser o destino dos protetores.
Jamais escolheria aquela noite contra qualquer outra citada.
O dia começou a amanhecer e nas costas do grupo uma frota dourada podia ser vista, também colossal, e se apresentou no horizonte. Eram dois couraçados Haurianos.
Mais tarde, quando questionou o Justicado Zômus sobre como ele havia a encontrado, obtivera a seguinte resposta:
“A Senhora fez a noite virar dia. Fez o céu castigar e punir os mares. A tua ira brilhou, Lady Catarina, A Senhora da Tempestade”
A figura, agora maneta, se esgueirou para a proa queimada do navio e, novamente, emitiu um grunhido horrível.
Uma Ambú-Real negra se deslocou da embarcação maior e veio buscá-la.
Nííhmonas queria muito que a figura ficasse.
O navio, quase afundado, sucumbiu minutos depois, mas Nííhmonas, o mudo, já havia se afastado, acompanhado de sua Senhora e da criança.
— Qual o seu nome, criança? — Perguntou Catarina com seus últimos suspiros antes da inconsciência.
A criança sorriu. Um sorriso pequeno, mas real. Catarina fechou os olhos.
— Aíísha


