Sobre o ver e o enxergar.
“Epígrafe ilegível”
— Luna
A menina chegou inocente e indefesa, como todos os bebês de colo deveriam chegar. Tudo o que interpretava do mundo vinha apenas dos sentidos orgânicos.
Sentia o cheiro do incenso doce e o amadeirado do natrão. O que via era uma paisagem artificial — árvores e o sol pintados no teto, único espaço visível do berço. O forro, de madeira antiga, trazia odores que lhe davam o gosto de maresia e liberdade, tão distintos de sua nova morada. Seus ouvidos, privados de estímulo, foram aos poucos silenciando. A estrutura toda foi construída com isolamento acústico.
Adotou o silêncio como sotaque.
A Séd Escarlate erguia-se como um palácio imponente na fronteira entre CassioMariana. Feita de pedra clara, refletia com brutalidade a luz do sol, impossibilitando encará-la durante o dia — um efeito semelhante ao das blindagens escarlates, ilusório, insuportável.
A menina ainda não tinha nome. Também não compreendia o conceito de identidade. Era apenas “a menina”, indistinta do resto das coisas. Não havia fronteira entre ela e o mundo. Nenhum limite. Uma entidade pré-humana em estado bruto e solitário.
O leite materno cessou, substituído por um chá doce demais. As escarlates, excelentes mestras, eram péssimas mães — intolerantes ao choro das pequenas. Com o auxílio dos shamãns, prepararam um composto mágico para substituir o leite. O chássarino levava erva-sá e vinho, embora os magos jurassem que o álcool se perdia no preparo.
A infusão acalmava e reduzia os impulsos excretores. Era mais útil para as mães do que para as filhas. Um recurso a serviço do silêncio.
Crianças escarlates não choram.
O colo virou promessa rara. Ninguém a carregava. Os lençóis vermelhos, impregnados de magia cinética, permitiam à responsável mover a criança com um simples estalar de dedos — fria eficiência sem afeto.
Tudo na Séd era arrumado com obsessão.
As Mantenedoras não reconheciam a palavra “erro”. Apesar da frieza, respeitavam a infância de forma singular. Em Artha, onde se raptavam mais crianças do que se furtavam moedas, isso era quase uma virtude.
A menina era pouco mais que um sistema biológico: comia, dormia, cagava — a vida ideal, diriam alguns.
Seu afeto era desmodulado, inclassificável, uma marca entre as escarlates.
Os shamãns criticavam esse modo de criação, mesmo quando disfarçado por altruísmo metódico. Acreditavam que o ato de amamentar era vital para formar crianças fortes. Diziam que o leite da mãe carregava a semente do amor e que, sem semente, não há planta. Para eles, esse era o motivo do embotamento escarlate.
As magas, porém, pouco se importavam com as metáforas.
Com o tempo, a menina começou a descobrir seus limites. Passou a se perceber como um corpo — um começo, um fim.
Saber onde se inicia e onde termina é uma das maiores conquistas humanas.
Aprendeu a andar, a se mover por conta própria, sem jamais receber um elogio por isso. Cada conquista mergulhava no silêncio. Ninguém celebrava. Ninguém se comovia.
Na idade escolar, a aflição diminuiu, ou ao menos deveria ter diminuído. Ali, encontrou outros semelhantes: colegas da dor oculta. Ainda assim, não formou vínculos. Já conhecia as fragilidades humanas e não pretendia se enganar duas vezes.
Frequentava as aulas com fervor e fé. Na pedagogia, procurava uma pista sobre o que queria ser. Com origens apagadas, o destino parecia vago.
No início, aprendeu história de Artha, matemática, linguagem comum e draconiana, geografia, teologia e todas as outras matérias consideradas essenciais. Filosofia, no entanto, fora omitida. As magas não toleravam o pensamento filosófico precoce de suas aprendizes.
“Se entender é para poucos” — já dizia Lady Alícia.
A vida da menina era simples, regrada. Pouco a pouco, foi sendo aproximada dos conceitos mágicos. As mestras evitavam qualquer perturbação emocional. Por volta dos dez anos, deixaram as disciplinas humanas de lado. Passou a ser preparada para o transe de rito: o Silláureum.
As colegas estavam eufóricas com o evento, descrito como o divisor entre magos e humanos. Um dia, a professora explicou:
“O Silláureum é induzido, inicialmente, por substâncias extraídas do Cogumelo do Silêncio. Madre Scarlet cunhou o nome e escreveu a frase icônica sobre a pedra da catacumba: silentium est aureum. O rito consiste em um estado de sono com foco desperto. A aprendiz lê os livros da absorção e os estuda no vazio interno. Todo conhecimento é absorvido integralmente. Isso também altera o ciclo do sono. Vocês não mais sonharão após o primeiro Silláureum.”
“O processo tem um risco: memórias humanas o distorcem com facilidade. Tristeza, rancor, raiva, ódio ou amor podem se transformar em pesadelos vívidos de duração indeterminada. Nossa frieza é necessária.”
A professora lhe entregou os livros e reforçou a advertência:
— Mente livre, Cecília. Mente livre.
A menina se empoleirou no armário vazio sobre sua cama. Odiava deitar-se ali. Desgostava dos lugares baixos e vulneráveis, como se algum instinto antigo lhe avisasse. Coisa de criança.
Certa vez, caiu de cima e deslocou o ombro esquerdo. A dor foi imediata. Seus olhos se encheram de lágrimas, despertando uma reflexão precoce:
— Então, a tristeza dói?
A Mantenedora a levou até a curandeira, e o ferimento as espantou. O ombro estava fora do lugar, em uma posição grotesca.
— Vamos ter que fazer muita força para pôr esse ombro no lugar. Vai doer, Cecília.
As mulheres a acomodaram em uma cadeira e, com um lençol, tentaram tracionar o ombro para recolocá-lo. Fracassaram.
Pôr um ombro no lugar exige esforço exaustivo. Em alguns casos, apenas um homem forte consegue realizar a manobra. Na Séd Escarlate, não havia nenhum.
Do lado de fora do palácio, um acampamento de Zíngaros vendia artefatos e oferecia serviços místicos — todos considerados farsas pelas magas. Por azar ou destino, também não havia homens por ali. Havia, no entanto, um menino grande.
— Ele monta e desmonta nossa tralha. Cuida dos cavalos. Carrega malas e mercadorias. Deve servir para pôr um ombro no lugar.
Da cabana saiu um guri que parecia mais velho do que sua idade denunciava. Já exibia traços de barba e um peitoral “pré-peludo”. Cecília se encantou. Nunca havia visto um homem de verdade, muito menos um que viesse, enfim, para salvá-la.
O menino recusou a ajuda das magas. Pediu licença e, com delicadeza e firmeza, ajustou o ombro da menina — e, sem saber, também tocou algo no centro de seu coração.
Cecília sentiu algo por ele, mas seus sentimentos eram confusos demais para nomear. Talvez tivesse se apaixonado. Talvez tivesse encontrado um irmão. Nem as escarlates entendem seus próprios corações. Diziam:
— Nós conhecemos o amor, mas ele se recusa a se apresentar.
Ela passou a observá-lo pela janela do andar superior do palácio. Invejava sua condição, acompanhava-o varrendo a rua, espantando gatos, movendo-se com liberdade e força. Admirava tudo aquilo.
Partiu seu coração ao partir, dividindo o partir em duas metades, ambas dolorosas.
Todo Cassiano, ao atingir certa idade, é obrigado a se apresentar aos treinamentos militares. A Aliança jamais deixaria de se preparar contra o destino. Este, por sua vez, sempre foi calculista. Fez o menino partir. Fez a menina meditar.
Sua hora havia chegado.
Thayanna foi ingênua ao subestimar a memória mágica. Acreditou que a menina não precisava saber de onde vinha. Talvez esse tenha sido seu maior erro.
Despiu-se das vestes. Recebeu apenas uma toga branca. Seus cabelos foram lavados junto ao corpo e um pó aromático espalhado pelas axilas e partes íntimas. Depois, conduziram-na escadaria abaixo até os subterrâneos do castelo.
A cada degrau, o silêncio parecia mais vivo. Os ouvidos entupiam de quietude.
Por fim, uma porta entalhada se abriu. Do outro lado, aguardava a sala de Silláureum. Seus livros estavam ali — apenas seus livros. O cômodo lhe pertencia.
A primeira hora seria acompanhada por uma maga.
— Como eu sei se estou em Silláureum?
— É fácil. Seus livros vão voar… e seu cabelo também — respondeu à maga, sorrindo enquanto ajustava a postura da menina.
Com tudo pronto, recitaram juntas as runas sagradas.
Nada aconteceu.
— Que estranho. Você está preocupada? Está com medo?
— Meu medo não me impede de nada, Senhora.
— Muito bem! Mas eu não sou senhora, Cecília!
— Para mim, você é.
A relação entre as duas lembrava uma amizade com décadas de diferença. Mulheres mais jovens gostavam da companhia das mais velhas — sentiam-se mais belas ao lado delas.
Fizeram nova tentativa.
Nada. Nenhum livro se moveu. Nem um fio de cabelo.
— Isso é atípico.
— A senhora tem alguma ideia? — perguntou Cecília, um tanto frustrada.
— O ambiente está propício. O silêncio também… tudo parece em ordem — murmurou a maga, observando o entorno.
— Isso me incomoda bastante — respondeu à menina, rabiscando o chão com o pé direito.
— O silêncio?
— O cômodo. Não gosto de lugares baixos.
— Vai me dizer que prefere o alto de uma árvore, na chuva? — A maga riu, surpresa.
— Dez vezes — confirmou, com sinceridade.
— Vou chamar a Mãe — anunciou, referindo-se à Senhora Mantenedora.
As duas mestras observaram a menina com atenção e empatia. Cecília era uma das melhores aprendizes. A mana fluía nitidamente através dela.
— Tive uma ideia. Existe uma sala na torre. O dia está nublado. Você quer tentar meditar lá?
— Eu adoraria.
Subiram juntas, escadaria acima. As mais velhas resmungaram entre os degraus:
— Essa escada não precisava ser tão agressiva…
Magos sempre sabem a quem culpar.
No topo da torre, o cômodo era diferente. As janelas ofereciam apenas o céu como vista, e o vento forte tornava qualquer conversa difícil. Havia uma banqueta.
— Aqui está perfeito — disse Cecília. — Já tem até um lugar para mim.
Antes mesmo que as magas refletissem, os livros começaram a voar. O vento os empurrava contra a parede, mas a magia os lançava de volta, como se reagissem ao impacto. O barulho era intenso. Do lado de fora, parecia que alguém atirava volumes contra as pedras.
— A senhora pensou rápido. Louvável, minha Senhora.
— Essa não foi a primeira vez — disse a mais velha, apoiando as mãos nos joelhos. — Ui… que escada traiçoeira. Duvido que tenha sido um mago quem projetou aquilo…
— A senhora já usou esse cômodo? Tinha uma banqueta lá…
— Sim… tivemos outra aprendiz assim. Na época, levamos tempo para entender o problema. Agora, tudo ficou claro.
— Vai dizer que era…
— Sim. A Sombra.
Depois do Silláureum, a menina mudou.
Seus julgamentos e ponderamentos eram mais ágeis, suas convicções, mais sólidas.
— Seis anos de Silláureum, Cê?
— Sim…, mas eu nem vi passar.
— Impressionante. Eu aguentei cinco, e já me ovacionaram na época. — A colega respondeu.
— E que azar o nosso, né? Aprendizes logo de quem? Lady Thayanna? A mulher me dá arrepios!
— Eu a admiro! Matadora de mercenários!
— SHIU, CÊ! Que papo torto! Quer tomar advertência? De novo?
— Uai… em quem vamos descontar nossas tragédias?
— Eu acho que você é maluca, Cê…
— Vai dizer que você não quer fritar uns mercenários? — Cecília cutucou a colega com o dedo enquanto sorria.
— Não é assim que funciona… eu acho.
— Ah, Catarina… duvido!
A colega ia para sua primeira tentativa. Seu tom da professora era muito diferente.
As aprendizes escarlates só conheciam a técnica da tentativa momentos antes de fazê-la.
Seu perigo era muito mais brutal. Diziam que nenhuma maga havia falecido durante as tentativas, mas todas conheciam a verdade. Mensalmente, uma morria. Senhoras eram excelentes guardadoras de segredos. Excelentes atrizes.
Cecília aguardava sua chamada para o lado de Thayanna, mas a Senhora estava em processo de passagem para o cargo de Sombra.
Catarina foi conduzida à primeira tentativa pela própria Madre Tereza, na Lissérgia — um evento único e especial. Ela era mais nova e mais iniciante do que Cath. Consideravam-se “amigas”.
Com a partida da loira, Cecília se sentiu só novamente e tudo mudou quando o menino retornou.
O corpo agora era realmente forte, largo e alto, como um verdadeiro guerreiro de elite, mesmo mantendo seu semblante arisco e inocente.
Cecília se encantava.
Observava o menino pela janela…
Mas desta vez, ele percebeu.
Evitava cruzar olhares com a maga, uma vez que sua paixão poderia significar uma sentença de morte.
Uma tarde, Cecília viu o homem tralhado, com mochila nas costas aguardando alguém vir lhe buscar.
Sua mãe chorava bastante. Mas ele mantinha a expressão indiferente.
Cecília não entendeu e decidiu investigar na manhã seguinte. Despertou e se ajeitou: maquiagem, cabelos e vestuário — sempre nessa ordem. Tinha o costume de andar nua por seus aposentos, pois até a pressão das roupas lhe causava sensação de aprisionamento. Olhou pela janela e viu coletores buscando um corpo.
A mãe do menino havia colocado um fim em seu sofrimento.
Segurando o vestido, a menina desceu as escadas procurando por respostas.
A irmã da mãe apontava com o dedo para sua Senhora:
— Para você, não é nada, né? Vocês cortam suas aprendizes naquelas tentativas, não é mesmo?
A Senhora não alterou a pose.
A agressividade é comum e entendível naqueles que passam pelo luto.
A cena se grifou na mente de Cecília.
Uma pintura instantânea. Um quadro eterno.
A rua estreita de blocos de pedra
As gaivotas pousadas nas vigas cilíndricas de madeira
O pano roxo que cobria a tenda
O barulho das galinhas no quintal
Vermelha dos vestidos das magas
E a expressão de desolação no rosto da tia do menino
— O que aconteceu? — Cecília perguntou.
— Olha só… uma maga que se importa? Cuidado para não ser afastada do clã, ombro!
Cecília admirou a memória da mulher.
— Minha irmã teve que vender o filho para pagar as dívidas do marido. Aposta e rum são a ruína de qualquer homem.
— E onde ele está? O pai?
— Você acha que eu sei? É filho da noite e dono do mundo. Vive por aí causando encrenca.
— E o menino?
— Vai ser escravo… igual ao meu.
— Escravos não são permitidos na Aliança. — Cecília estranhou.
— É mesmo? Então, vai lá avisar para o pessoal do Timão.
Cecília engoliu as palavras.
O menino não fora vendido para escravagistas comuns. Foi vendido para criminosos.
— Ele não vai durar um dia lá. É incapaz de fazer mal a alguém à toa. Vai preferir a morte.
Cecília tentou chorar… não conseguiu.
Correu para as escadas e subiu paro os aposentos, não os seus. A hiper pensadora pensou rápido.
Surrupiou um grimório do quarto da Senhora. Sabia que ela estava ocupada.
Cecília tinha uma relação muito romântica com o saber. Demorava para entender as coisas…, mas tudo que entendia se tornava seu, incorporando o dogma de uma verdadeira maga.
Avisou as Mantenedoras que pousaria fora, pois precisava espairecer a mente.
Após o Silláureum, tinham liberdade de ir e vir.
E até poderiam abdicar da magia…
Mas nunca o faziam.
Alugou um quarto na instalação próxima do castelo e pediu pelo cômodo mais barulhento e mais próximo da bagunça que pudessem oferecer.
Arrancou as roupas e sentou-se na cama com o grimório vermelho, à sua frente. Ele começou a voar.
Próximo à instalação havia uma construção suspeita, instalada num lote da baixada — a região mais perigosa da vila. Era lá que os mercenários disfarçavam suas intenções, fixavam-se com discrição e procuravam por missões ocultas.
Aquele esconderijo tinha um detalhe especial: a porta de alçapão, oculta sob um tapete desbotado, dava acesso a uma escada extensa que levava a um corredor subterrâneo. O trajeto seguia por um salão com múltiplas salas até alcançar uma porta nos fundos, que se abria para fora dos limites da cidade.
O menino foi conduzido amarrado, os olhos vendados. Sob seus pés, a textura do mundo mudava. Primeiro a terra batida da vila, depois o rangido da madeira envelhecida da casa, seguida pelas pedras ásperas do corredor e, enfim, o toque fresco da grama.
Colocaram-no numa carroça. Seguiram ao norte.
Uma propriedade rural camuflava a verdadeira base da organização de Timão. Ao chegar, o líder foi direto ao ponto.
— Você é grande, forte e tem treinamento militar. Quer se tornar um mercenário, rapaz?
— Não, senhor.
— Prefere limpar minhas botas e minha casa?
— Sim, senhor.
— Ótimo. Preciso de alguém forte para ajudar minhas criadas.
— Obrigado, senhor.
À primeira vista, Timão parecia apenas um sujeito prático. Talvez não fosse tão cruel quanto pareciam os rumores.
— Preciso marcá-lo como faço com gado ou porcos. Nada pessoal. Apenas uma questão de posse.
Prenderam-no a uma cadeira. Ele acreditava que suportaria a dor. Quando viu a faca incandescente se aproximando, apenas fechou os olhos e firmou a respiração.
— Só tem uma coisa, guri. Eu não posso dormir com um guerreiro de elite limpando minha casa. Você pode me matar quando quiser, concorda?
— Não, senhor. Minha palavra é minha dívida.
— É… só que essa não é a minha.
Dois homens o seguraram com força. O líder cravou a lâmina em seus olhos e os arrancou.
— Pronto. Agora eu durmo tranquilo.
Os gritos foram insuportáveis. Ecoaram pela propriedade até que um dos homens, incomodado, golpeou-lhe a cabeça para calá-lo. Atiraram-no em uma das salas aos fundos como se descartassem uma carcaça.
O líder voltou à mesa. Os homens retomaram a bebida, rindo da cena como se tivessem acabado de assistir a uma peça de comédia.
A noite desceu. O vento castigava a estrutura, fazendo a porta oscilar com sua moldura. Lá dentro, o menino continuava sangrando. A hemorragia não cessava.
— O cego não parou de sangrar, senhor. Acho que vai morrer.
— Fracote… e olha que dessa vez usei a faca quente.
As risadas cresceram, desinteressadas da vida que esvaía no cômodo ao lado.
Então, a porta se abriu com violência. Uma figura apareceu, parada na entrada da sala. O vestido vermelho se destacava sob a penumbra, e o sangue escorria pelo braço esquerdo da visitante.
Poças vermelhas marcavam seu caminho.
Os mercenários ficaram imóveis. Nenhum sequer levou a mão à espada. A figura avançou até o centro do salão.
Quando Timão se levantou, ela tossiu sangue no chão.
— Acho que você escolheu a pior casa para pedir ajuda, pequena. Peguem um balde, muito desperdício de sangue.
Os cabelos da estranha começaram a perder o tom castanho-claro. Tornaram-se brancos, ali, diante de todos.
— Chefe…
— Eu sei.
— Fodeu.
Gregório, preso na escuridão de sua mente, ouviu os sons. Tentou imaginar o que acontecia. Pensou que um homem-lobo tivesse invadido a casa.
A gritaria não durou muito.
Ele se sentiu próximo do fim. Mais próximo da morte do que jamais estivera.
A porta rangeu de novo. Passos se aproximaram. Ela chegou até ele, cambaleando.
Sussurrou seu nome. Depois, palavras em draconiano — antigas, solenes, vivas. Gregório as aceitou sem resistência.
Sua visão voltou.
O coração disparou.
A vida reiniciou.
Cecília caiu ao lado dele, exausta com o balde ainda em mãos.
Gregório, já enxergando, pegou o balde e o colocou sobre a cabeça para esconder os olhos ausentes. Depois, carregou a salvadora de volta ao castelo.


